Renato Ramos, professor de Educação Física da Escola Municipal
Tancredo Neves, em Vitória (ES) foi fuzilado, provavelmente por ter denunciado
alunos que iam armados para a escola. O acontecido, assim como outros fatos
ocorridos recentemente, merece uma reflexão. É uma discussão
importante esta sobre onde termina o papel do professor, onde começa
o papel da polícia e até que ponto certas coisas acontecem por
força da omissão de nossos políticos. Acho que professores,
diretores, sindicatos, autoridades educacionais e jornalistas têm que
parar de fingir que certos problema não existem e passar a abordá-los
com mais seriedade e honestidade.
Em Belo Horizonte, temos o caso do professor Reginaldo Nunes Pinto que, com
certeza, é mais um episódio que ilustra bem o que anda acontecendo
com muitos mestres. Preocupados em não se omitir diante de algumas situações
enfrentadas no convívio com seus alunos e incentivados por colegas e
superiores mal informados, alguns educadores estão virando vítimas
indefesas de bandidos, tendo suas vidas ceifadas ou transformadas em um inferno,
sofrendo ameaças ou sendo vítimas de atos de terrorismo.
No combate ao tráfico de drogas e à criminalidade nas escolas,
alguns mestres, principalmente aqueles que ocupam funções administrativas,
têm sido incentivados a cumprir um papel que não é deles,
já que eles não estão investidos do poder de polícia
nem contam com treinamento e armamento adequados para lidar com bandidos de
alta periculosidade. O papel do educador no combate ao tráfico e uso
de drogas e ao crime em geral deve se restringir à promoção
de atividades pedagógicas. O educador deve (o que já é
muito e já oferece certa parcela de perigo para ele) orientar seus educandos,
procurando evitar que eles sucumbam ao aliciamento de bandidos, alguns dos quais
seus vizinhos e/ou parentes.
Confronto direto com bandidos não leva a nada e ainda coloca em risco
a vida do professor. A simples denúncia de usuários e traficantes
de drogas à polícia, irresponsavelmente incentivada por algumas
autoridades, inclusive por conselheiros tutelares, já levou muita gente
boa que militava na área da educação para os cemitérios.
Além de não ter o poder de colocar atrás das grades os
bandidos, o professor não conta com nenhum tipo de proteção
policial efetiva e eficiente, quando a justiça coloca de volta nas ruas
(e até de volta dentro das escolas) elementos perigosos que ele ajudou
a denunciar. E sempre que educadores precisam com urgência da polícia,
ela só chega quando o mal já está feito. Tenho visto policiais
reclamando de serem chamados para debelar situações de conflitos
envolvendo elementos perigosos, sugerindo que é função
da escola cuidar deste tipo de ocorrência. Também já vi
colegas enfrentando bandidos como se ainda fôssemos autoridades respeitadas.
Esse tempo já passou.
Após trinta e cinco anos de experiência na área educacional,
só posso dizer a esses colegas que não façam isso. Se os
bandidos não respeitam mais nem a polícia, o melhor que o professor
tem a fazer é não se omitir, mas "ficar na sua", cumprindo
suas reais funções, que são orientar e educar seus alunos.
E só.
A cada dia que passa, precisamos mais de professores vivos e ativos
que, trabalhando duro no exercício de suas reais funções
e contando com o apoio efetivo das comunidades escolares, da polícia.
da justiça e dos governos, ajudem a transformar a nossa sociedade e acabar
de vez com a barbárie que hoje campeia solta por todos os cantos do mundo.
Nenhum educador deve bancar o herói, tentando fazer um papel que, na
verdade, deveria ser desempenhado por autoridades que falham em sua missão
por serem omissas, incompetentes e corruptas.