No final do século passado, com a derrota do bloco soviético e
o propalado fim do comunismo, atrevi-me a fazer algumas profecias sobre o futuro
do mundo. E o que vi na minha "bola de cristal" aterrorizou-me.
Meus parcos estudos sobre a Física, a Biologia, a Química e outras
ciências ensinaram-me que toda mudança na natureza decorre de um
processo, a partir da observação do qual se pode deduzir certas
leis e relações de causa e efeito. Imitadores natos da natureza,
os homens criaram suas grandes engenhocas muito mais a partir da cópia
das coisas que ele viu na natureza do que a partir de seu cérebro privilegiado.
Enquanto o homem se ocupou em retirar da natureza o seu sustento básico
e inventou inocentes geringonças para explorar melhor os recursos naturais,
se comunicar melhor e se deslocar mais rapidamente, sem colocar em risco o Planeta
Terra, ele progrediu e evoluiu. Entretanto, todo o progresso humano, desde o
aparecimento das primeiras civilizações, sustentou-se em sistemas
econômicos altamente concentradores de rendas e riquezas e em sociedades
com altos níveis de miséria e desigualdade entre seus membros.
Ao chegarmos ao século XX, o mundo tinha diante de si dois fatores geradores
de terríveis guerras: a disputa de mercados entre as grandes potências
e a revolta dos explorados, impulsionados para guerras sangrentas em nome de
se implantar no mundo sociedades mais igualitárias, controladas pelas
classes trabalhadoras.
Durante o século XX, várias gerações de oprimidos,
no mundo inteiro, dedicaram suas vidas à luta pela derrubada do capitalismo.
Bilhões de pessoas lutaram em guerras, foram assassinadas, torturadas,
humilhadas e milhares de famílias não puderam enterrar seus membros
que morreram e "foram desaparecidos" quando lutavam por um mundo que
consideravam mais justo e humano. . Naquela época, os pobres, os derrotados,
os sem oportunidades, os sem perspectivas, os desesperançados, mesmo
quando não militavam nas hostes de esquerda, torciam pela vitória
daqueles que lhes acenavam com alguma esperança de transformação
social.
De repente, sob os olhos boquiabertos de intelectuais, lideranças e militantes
de esquerda de todo o mundo, ruiu o império soviético, a História
acabou, o comunismo morreu e a noção de direita e esquerda perdeu
sua razão de ser. Os rebeldes e desesperançados de todo o mundo,
a partir de então, teriam seus destinos regidos pelas leis do mercado.
Os perdedores, os desvalidos, os miseráveis, os explorados, os rebeldes,
os nascidos para transformar o mundo, todos que tinham em suas mãos a
responsabilidade fazer o trem da História avançar por novos trilhos,
se viram subitamente desalojados e jogados nas margens da enorme ferrovia da
evolução humana. E bilhões de seres humanos foram condenados
a assistirem famintos, esmolambados e/ou excluídos da vida ao surgimento
de um admirável mundo novo, governado pelas leis e pelos donos do Mercado.
Quando tais fatos aconteceram, temi uma nova imposição da Pax
Romana, agora de forma definitiva no mundo. Porém, ao mesmo tempo, perguntei-me:
o que seria feito do espírito belicoso do ser humano? Como se comportariam
os miseráveis que habitavam o mundo, agora sem a esperança do
socialismo científico? E, quando tentei visualizar a resposta a estas
perguntas, recusei-me a descrever publicamente o futuro que se apresentava à
minha frente.
Não foi preciso muito tempo para que minhas previsões se confirmassem.
Adormecidas há décadas, fontes de ódio entre irmãos
despertaram com fúria redobrada. Desavenças religiosas, diferenças
étnicas, brigas pessoais pelo poder, disputas de território, motivos
torpes e absurdos esquecidos pelos revolucionários que lutavam nas guerras
pelo socialismo causaram as novas guerras do final do século XX e do
início do século XXI. Rios de sangue continuaram a correr no mundo.
Massacres e mais massacres de civis inocentes transformaram as Declarações
de Direitos Humanos, as Convenções como a de Genebra e outros
documentos históricos em utopias a serem desrespeitadas impunemente,
tanto pelas grandes potências quanto por seus desafiantes. A Humanidade
passou a reviver os embates entre cristãos e muçulmanos, como
se a História fosse regida por uma lei que determinasse que, uma vez
freado seu avanço, ela tivesse, forçosamente que recuar em direção
ao passado.
E a classe trabalhadora? E os desempregados, os miseráveis que vivem
em condições subumanas? Como previ no século passado, eles
não permaneceram submissos e conformistas. Se, agora, a luta coletiva,
que libertaria a todos e criaria uma sociedade igualitária é a
utopia das utopias, cada um que forme seu bando e lute a seu modo para se libertar
das agruras da vida rasteira nas favelas e nos guetos. A cada dia mais organizadas,
armadas e capitalizadas através da prática de atividades ilícitas,
as massas, como as chamavam os comunistas do passado, hoje lutam armadas até
os dentes para se livrar do destino miserável que as espera. Seria muita
ingenuidade esperar que essas pessoas tivessem alguma ética, algum princípio,
algum amor pelos seus semelhantes. Por isso mesmo, diante da violência
e do alto grau de crueldade dos nossos bandidos, hoje, o cidadão que
ainda busca o trabalho como forma de ganhar a vida sai de casa sem saber se
vai voltar ou não. O pior é que ainda teremos saudade deste tempo,
em que ainda temos dúvidas se voltaremos para casa após um dia
de trabalho. A tendência é que chegue o dia em que teremos absoluta
certeza de que, ao sairmos, não retornaremos mais.
E assim caminha a Humanidade, cheia de problemas insolúveis que se agravam
a cada dia. Para piorar as coisas, arrogantes, ignorantes e pretensiosos cientistas
patrocinados pelos reis da ganância no Planeta, com suas invenções
malditas, emporcalharam nosso ar, endoideceram nosso clima e, num curtíssimo
prazo, vão inviabilizar a sobrevivência da humanidade.
Acho graça na propaganda da TV que fala que "se o homem soubesse
isso, não faria aquilo". Que mentira! Eu já sabia, a muitos
anos, de todas as desgraças que estão acontecendo hoje. Muito
mais gente sabia e, ao contrário de mim, que não acreditei que
chegássemos aonde chegamos e me calei, essas pessoas botaram a boca no
trombone e tentaram alertar o mundo. E adiantaram alguma coisa as advertências
dos verdadeiros sábios e cientistas que tentaram mobilizar a Humanidade
para tentar salvar o Planeta? Não. Ninguém os ouviu. Estavam todos
hipnotizados pelo galopante e surpreendente desenvolvimento tecnológico
do admirável mundo novo onde viviam. Estavam todos ocupados demais enchendo
suas mentes de bobagens, diante de seus televisores e computadores, para conseguirem
enxergar a realidade do mundo à sua volta.
Como um curioso que mexe no motor de um carro e o danifica a ponto do veículo
não ter mais salvação, mexeram no processo histórico
e desviaram a humanidade do caminho que a levaria a uma evolução
saudável e mais justa. Também interferiram nas leis e processos
naturais, condenando a raça humana à extinção precoce.
Para nós, da terceira e última idade, certos acontecimentos não
farão muita diferença. Porém, para as futuras gerações,
ainda existem esperanças e sérios motivos para tentar salvar a
humanidade. Entretanto, gostaria de deixar para a nossa descendência uma
recomendação muito séria: não haverá salvação
para ninguém, enquanto os mesmos que nos levaram a esta situação
continuarem reinando na Terra..