A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Esses homens gananciosos e suas geringonças catastróficas

(Luiz Lyrio)

No final do século passado, com a derrota do bloco soviético e o propalado fim do comunismo, atrevi-me a fazer algumas profecias sobre o futuro do mundo. E o que vi na minha "bola de cristal" aterrorizou-me.

Meus parcos estudos sobre a Física, a Biologia, a Química e outras ciências ensinaram-me que toda mudança na natureza decorre de um processo, a partir da observação do qual se pode deduzir certas leis e relações de causa e efeito. Imitadores natos da natureza, os homens criaram suas grandes engenhocas muito mais a partir da cópia das coisas que ele viu na natureza do que a partir de seu cérebro privilegiado.

Enquanto o homem se ocupou em retirar da natureza o seu sustento básico e inventou inocentes geringonças para explorar melhor os recursos naturais, se comunicar melhor e se deslocar mais rapidamente, sem colocar em risco o Planeta Terra, ele progrediu e evoluiu. Entretanto, todo o progresso humano, desde o aparecimento das primeiras civilizações, sustentou-se em sistemas econômicos altamente concentradores de rendas e riquezas e em sociedades com altos níveis de miséria e desigualdade entre seus membros. Ao chegarmos ao século XX, o mundo tinha diante de si dois fatores geradores de terríveis guerras: a disputa de mercados entre as grandes potências e a revolta dos explorados, impulsionados para guerras sangrentas em nome de se implantar no mundo sociedades mais igualitárias, controladas pelas classes trabalhadoras.

Durante o século XX, várias gerações de oprimidos, no mundo inteiro, dedicaram suas vidas à luta pela derrubada do capitalismo. Bilhões de pessoas lutaram em guerras, foram assassinadas, torturadas, humilhadas e milhares de famílias não puderam enterrar seus membros que morreram e "foram desaparecidos" quando lutavam por um mundo que consideravam mais justo e humano. . Naquela época, os pobres, os derrotados, os sem oportunidades, os sem perspectivas, os desesperançados, mesmo quando não militavam nas hostes de esquerda, torciam pela vitória daqueles que lhes acenavam com alguma esperança de transformação social.

De repente, sob os olhos boquiabertos de intelectuais, lideranças e militantes de esquerda de todo o mundo, ruiu o império soviético, a História acabou, o comunismo morreu e a noção de direita e esquerda perdeu sua razão de ser. Os rebeldes e desesperançados de todo o mundo, a partir de então, teriam seus destinos regidos pelas leis do mercado. Os perdedores, os desvalidos, os miseráveis, os explorados, os rebeldes, os nascidos para transformar o mundo, todos que tinham em suas mãos a responsabilidade fazer o trem da História avançar por novos trilhos, se viram subitamente desalojados e jogados nas margens da enorme ferrovia da evolução humana. E bilhões de seres humanos foram condenados a assistirem famintos, esmolambados e/ou excluídos da vida ao surgimento de um admirável mundo novo, governado pelas leis e pelos donos do Mercado.

Quando tais fatos aconteceram, temi uma nova imposição da Pax Romana, agora de forma definitiva no mundo. Porém, ao mesmo tempo, perguntei-me: o que seria feito do espírito belicoso do ser humano? Como se comportariam os miseráveis que habitavam o mundo, agora sem a esperança do socialismo científico? E, quando tentei visualizar a resposta a estas perguntas, recusei-me a descrever publicamente o futuro que se apresentava à minha frente.

Não foi preciso muito tempo para que minhas previsões se confirmassem. Adormecidas há décadas, fontes de ódio entre irmãos despertaram com fúria redobrada. Desavenças religiosas, diferenças étnicas, brigas pessoais pelo poder, disputas de território, motivos torpes e absurdos esquecidos pelos revolucionários que lutavam nas guerras pelo socialismo causaram as novas guerras do final do século XX e do início do século XXI. Rios de sangue continuaram a correr no mundo. Massacres e mais massacres de civis inocentes transformaram as Declarações de Direitos Humanos, as Convenções como a de Genebra e outros documentos históricos em utopias a serem desrespeitadas impunemente, tanto pelas grandes potências quanto por seus desafiantes. A Humanidade passou a reviver os embates entre cristãos e muçulmanos, como se a História fosse regida por uma lei que determinasse que, uma vez freado seu avanço, ela tivesse, forçosamente que recuar em direção ao passado.

E a classe trabalhadora? E os desempregados, os miseráveis que vivem em condições subumanas? Como previ no século passado, eles não permaneceram submissos e conformistas. Se, agora, a luta coletiva, que libertaria a todos e criaria uma sociedade igualitária é a utopia das utopias, cada um que forme seu bando e lute a seu modo para se libertar das agruras da vida rasteira nas favelas e nos guetos. A cada dia mais organizadas, armadas e capitalizadas através da prática de atividades ilícitas, as massas, como as chamavam os comunistas do passado, hoje lutam armadas até os dentes para se livrar do destino miserável que as espera. Seria muita ingenuidade esperar que essas pessoas tivessem alguma ética, algum princípio, algum amor pelos seus semelhantes. Por isso mesmo, diante da violência e do alto grau de crueldade dos nossos bandidos, hoje, o cidadão que ainda busca o trabalho como forma de ganhar a vida sai de casa sem saber se vai voltar ou não. O pior é que ainda teremos saudade deste tempo, em que ainda temos dúvidas se voltaremos para casa após um dia de trabalho. A tendência é que chegue o dia em que teremos absoluta certeza de que, ao sairmos, não retornaremos mais.

E assim caminha a Humanidade, cheia de problemas insolúveis que se agravam a cada dia. Para piorar as coisas, arrogantes, ignorantes e pretensiosos cientistas patrocinados pelos reis da ganância no Planeta, com suas invenções malditas, emporcalharam nosso ar, endoideceram nosso clima e, num curtíssimo prazo, vão inviabilizar a sobrevivência da humanidade.

Acho graça na propaganda da TV que fala que "se o homem soubesse isso, não faria aquilo". Que mentira! Eu já sabia, a muitos anos, de todas as desgraças que estão acontecendo hoje. Muito mais gente sabia e, ao contrário de mim, que não acreditei que chegássemos aonde chegamos e me calei, essas pessoas botaram a boca no trombone e tentaram alertar o mundo. E adiantaram alguma coisa as advertências dos verdadeiros sábios e cientistas que tentaram mobilizar a Humanidade para tentar salvar o Planeta? Não. Ninguém os ouviu. Estavam todos hipnotizados pelo galopante e surpreendente desenvolvimento tecnológico do admirável mundo novo onde viviam. Estavam todos ocupados demais enchendo suas mentes de bobagens, diante de seus televisores e computadores, para conseguirem enxergar a realidade do mundo à sua volta.

Como um curioso que mexe no motor de um carro e o danifica a ponto do veículo não ter mais salvação, mexeram no processo histórico e desviaram a humanidade do caminho que a levaria a uma evolução saudável e mais justa. Também interferiram nas leis e processos naturais, condenando a raça humana à extinção precoce.

Para nós, da terceira e última idade, certos acontecimentos não farão muita diferença. Porém, para as futuras gerações, ainda existem esperanças e sérios motivos para tentar salvar a humanidade. Entretanto, gostaria de deixar para a nossa descendência uma recomendação muito séria: não haverá salvação para ninguém, enquanto os mesmos que nos levaram a esta situação continuarem reinando na Terra..

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