O "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley chegou. E, com ele,
vários olhos do "Grande Irmão" se espalharam sobre a
Terra, decretando o fim do direito das pessoas a uma vida privada. Hoje, expostos
a câmeras de vigilância que alguns insanos cometem a indiscrição
de instalar até em banheiros (tirando o direito das pessoas a uma vida
privada até mesmo na privada), ainda somos obrigados a conviver com terríveis
ladrões de privacidade portando celulares e similares.
A internet, supostamente criada para unir pessoas e encurtar distâncias,
hoje é o território livre onde se publica de tudo e se destrói
carreiras profissionais e reputações. Se antes - não faz
tanto tempo assim -, podíamos ter uma vida profissional séria,
nunca comprometida por nossa vida particular, isso, hoje, se tornou um sonho
impossível.
Durante trinta e cinco anos, convivemos com colegas professores. Na época,
em seus horários de folga, cada um levava uma vida normal, mas tinha
consciência de que seu comportamento nem sempre era apropriado para ser
visto por seus alunos ou por seus respectivos pais. Assim, nos grupos de professores
que saíam juntos, havia certa cumplicidade, principalmente quando algum
de nós bebia além da conta e fazia algo reprovável. Nesses
grupos, tudo que acontecia ficava ali, na boate, no bar ou na discoteca. Quem
ousasse tornar publicas atitudes reprováveis dos colegas era sumariamente
excluído do grupo que saía na noite.
E, assim, a gente bebia, dançava, pulava carnaval, se fantasiava e paquerava.
Convivi com muitas professoras solteiras que gostavam de sair na noite, dançar
e colocar para fora toda a sua sensualidade reprimida no ambiente de trabalho.
Essas professoras, algumas delas excelentes profissionais, tinham, naquela época,
o direito a uma vida privada que nunca se misturava com sua vida profissional.
Câmeras de vídeo, nessa época, eram possuídas por
poucos, que as usavam para objetivos mais dignos do que ficar expondo a intimidade
dos outros. E os meios de comunicação de massa preocupavam-se
somente em escarafunchar a vida dos famosos, deixando o cidadão comum
viver sua vida privada sossegado.
A professora Jaqueline de Carvalho, da Bahia, por exemplo, se tivesse vivido
naquela época, poderia passar a vida toda educando crianças e
dançando. E, como é uma moça bonita, o máximo que
poderia lhe acontecer seria ser chamada para trabalhar na TV ou dançar
no "Tchan", ou ser pedida em casamento por um milionário encantado
com seus atributos. E aí, em vez de deixar a profissão para ficar
desempregada, ela deixaria de lecionar para partir para uma vida melhor e mais
interessante.
O que tem que ser discutido hoje, não é se Jaqueline de Carvalho
tem ou não o direito de, sendo professora, dançar de forma sensual,
como querem uns, ou obscena, como querem outros. Também é perda
de tempo discutir se a professora tem ou não direito de fazer o que bem
entender nos seus horários de folga. O que tem que ser discutido é
se vamos ou não criar uma legislação que freie a ação
nefasta de quem expõe impunemente a vida privada alheia na internet.