A Garganta da Serpente
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O lastimável fim do direito à vida privada

(Luiz Lyrio)

O "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley chegou. E, com ele, vários olhos do "Grande Irmão" se espalharam sobre a Terra, decretando o fim do direito das pessoas a uma vida privada. Hoje, expostos a câmeras de vigilância que alguns insanos cometem a indiscrição de instalar até em banheiros (tirando o direito das pessoas a uma vida privada até mesmo na privada), ainda somos obrigados a conviver com terríveis ladrões de privacidade portando celulares e similares.

A internet, supostamente criada para unir pessoas e encurtar distâncias, hoje é o território livre onde se publica de tudo e se destrói carreiras profissionais e reputações. Se antes - não faz tanto tempo assim -, podíamos ter uma vida profissional séria, nunca comprometida por nossa vida particular, isso, hoje, se tornou um sonho impossível.

Durante trinta e cinco anos, convivemos com colegas professores. Na época, em seus horários de folga, cada um levava uma vida normal, mas tinha consciência de que seu comportamento nem sempre era apropriado para ser visto por seus alunos ou por seus respectivos pais. Assim, nos grupos de professores que saíam juntos, havia certa cumplicidade, principalmente quando algum de nós bebia além da conta e fazia algo reprovável. Nesses grupos, tudo que acontecia ficava ali, na boate, no bar ou na discoteca. Quem ousasse tornar publicas atitudes reprováveis dos colegas era sumariamente excluído do grupo que saía na noite.

E, assim, a gente bebia, dançava, pulava carnaval, se fantasiava e paquerava. Convivi com muitas professoras solteiras que gostavam de sair na noite, dançar e colocar para fora toda a sua sensualidade reprimida no ambiente de trabalho. Essas professoras, algumas delas excelentes profissionais, tinham, naquela época, o direito a uma vida privada que nunca se misturava com sua vida profissional.

Câmeras de vídeo, nessa época, eram possuídas por poucos, que as usavam para objetivos mais dignos do que ficar expondo a intimidade dos outros. E os meios de comunicação de massa preocupavam-se somente em escarafunchar a vida dos famosos, deixando o cidadão comum viver sua vida privada sossegado.

A professora Jaqueline de Carvalho, da Bahia, por exemplo, se tivesse vivido naquela época, poderia passar a vida toda educando crianças e dançando. E, como é uma moça bonita, o máximo que poderia lhe acontecer seria ser chamada para trabalhar na TV ou dançar no "Tchan", ou ser pedida em casamento por um milionário encantado com seus atributos. E aí, em vez de deixar a profissão para ficar desempregada, ela deixaria de lecionar para partir para uma vida melhor e mais interessante.

O que tem que ser discutido hoje, não é se Jaqueline de Carvalho tem ou não o direito de, sendo professora, dançar de forma sensual, como querem uns, ou obscena, como querem outros. Também é perda de tempo discutir se a professora tem ou não direito de fazer o que bem entender nos seus horários de folga. O que tem que ser discutido é se vamos ou não criar uma legislação que freie a ação nefasta de quem expõe impunemente a vida privada alheia na internet.

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