Ócio, sm. 1. Descanso ou folga do trabalho. 2. Lazer. 3. Preguiça,
moleza.
Nem o meu pequeno dicionário poupa a palavra ócio do estigma negativo
que lhe foi imposto através dos séculos. No século XXI,
a palavra, aos poucos, vai assumindo definitivamente seu significado exclusivamente
negativo. Numa sociedade onde o lema é trabalhar e consumir, usufruir
do ócio tornou-se um terrível pecado.
Ai daquele que escolhe o ócio ao trabalho! Entendendo liberdade como
o exercício do nosso direito de escolha, nas sociedades do século
XXI, é proibido escolher viver uma vida ociosa e de contemplação.
Se, em uma época ainda recente, sobrava-nos a opção de
enveredarmos por um modo de vida ocioso marginal, porém ainda admirado
por uma parcela de mentalidade mais avançada da sociedade, hoje, o ócio
tornou-se a marca daquele que não pode ter direito à satisfação
de suas necessidades básicas - "quem não trabalha não
come" - e ao convívio social e deve ser "tratado", receber
alguma ajuda especializada. Quem pratica e quer viver no ócio está
"doente", "deprimido" ou "desgostoso da vida",
como diziam os antigos.
O pior de tudo, porém, é que já está impregnada
dentro de cada um de nós a idéia de que o ócio é
um "pecado". E é entristecido que vejo as pessoas perdendo,
à medida que o tempo passa, a capacidade de ficar algum tempo descansando,
sem sentir culpa. "O que você fez de produtivo hoje?", pergunta-nos,
diariamente, o sempre chato e inconveniente grilo falante que alguns chamam
de consciência e todos temos dentro de nós. E o homem do século
XXI, também questionado vinte e quatro horas por dia pelas terríveis
máquinas criadas para condicioná-lo, doutriná-lo e controlá-lo,
sofre, quando constata que, ao fim de um dia, nada fez de produtivo. Alguns,
mais criativos, procuram unir o útil ao agradável, "fazendo
alguma coisa" ao mesmo tempo em que se dedicam a um falso e "ocupado"
ócio. Mas ninguém se sente bem "ocioso".
Até os pobres velhos aposentados, que já dedicaram décadas
de sua vida ao exercício de uma atividade produtiva, sentem-se mal em
serem "improdutivos" e muitos procuram uma atividade, não porque
precisam, mas para escapar da depressão proveniente do fato de estarem
atormentados por um torturante sentimento de culpa.
Diante de tudo isso, só existe uma cura para essa terrível doença
que acomete o homem do século XXI: combater o sentimento de culpa e exercer
o ócio em toda a sua plenitude. Ser ou estar ocioso é digno, bom
e saudável! Como diz um trecho da Bíblia, há um tempo para
tudo. Há o tempo de trabalhar e o tempo de descansar, folgar, dedicar-se
ao lazer. Há sim o tempo para praticar a preguiça, a boa preguiça
que alguns religiosos corruptos, regiamente recompensados pelos patrões
da época, incluíram entre os sete pecados capitais, provavelmente
no lugar de outro pecado como "intolerância religiosa", "exploração
do semelhante", "sede de poder" ou coisa parecida.
Hoje, o significado doentio e negativo da palavra "ócio" impede
que o homem do século XXI se "desrobotize" e pratique, sem
nenhum "grilo" a atormentá-lo, o exercício da boa e
saudável preguiça. Diante disso, só me resta aconselhar
a você, caro leitor, que pratique o ócio sem culpa. E, de preferência,
que pratique o ócio remunerado, aquele destituído de preocupações
com dividas, sobrevivência, pensões alimentícias ou coisa
que o valha. E, se alguém tentar incutir-lhe culpa por estar desocupado,
simplesmente nada responda. Desligue seu cérebro, feche os olhos, relaxe,
vire para o outro lado e finja estar dormindo. Quem sente falta, que vá
trabalhar.