Lembro-me muito bem das vésperas do golpe de 64. Os meios de comunicação
daquela época encontravam-se divididos em facções ideologicamente
mais coesas do que os pequenos partidos de esquerda de hoje. E o engodo da chamada
"versão imparcial dos fatos" era descaradamente vendido a um
público leitor ingênuo e crente na honestidade de uma imprensa
"que só tinha compromisso com a verdade".
De um lado, tínhamos jornais como o Binômio, o Correio da Manhã
e outros que apoiavam João Goulart e a necessidade das chamadas Reformas
de Base, entre elas, a reforma agrária. Do outro lado, outros jornais
de grande peso e os Diários Associados, tendo à frente Assis Chateaubriand
e, por trás, os governadores, deputados, generais, brigadeiros, almirantes,
um bando forte e poderoso de conspiradores, jogavam pesado para desacreditar
o presidente da república e convencer o povo de que o país estava
à beira do caos, a ponto de se "converter" ao comunismo ateu
e totalitário.
Eu, na época, curtia meus catorze aninhos. Jovem estudante do Ginásio
Frei Orlando, não quis usar o status de bom menino que tirava as melhores
notas para desafiar a escola, quando fomos avisados de que quem não comparecesse
na porta do "Freola" para ocupar seu lugar nos ônibus especiais
que nos levariam numa grande caravana para participar da "Marcha da Família
Com Deus Pela liberdade" seria punido com suspensão das aulas. Participei
da tal "marcha" contrariado, já que, como meus irmãos,
eu era a favor do governo e, filho de pais pobres que viraram classe média
vivendo exclusivamente para o trabalho e para os filhos, simpatizava muito mais
com aqueles que queriam melhorar a situação dos pobres do que
com aqueles que queriam ignorar a miséria e preservar seus privilégios.
Assíduo telespectador dos debates na TV entre o Calmon e o Brizola, admirava
o "velho caudilho" pelo seu atrevimento em desafiar os ricos e sentia
profundo desprezo por aqueles senhores e senhoras com os quais fui obrigado
a desfilar com Deus para derrubar João Goulart.
No dia 31 março de 1964, lembro-me perfeitamente da batalha de som de
rádio que travamos com os vizinhos que moravam à direita da nossa
casa. Duas grandes emissoras de rádio batalhavam pela audiência
e pelo poder. Uma emissora apelava para a mobilização do povo
e do exército para nos salvar do comunismo e preservar a democracia no
país. Outra emissora colocava-se do lado do governo e defendia a "legalidade"
e a democracia expressa através da vontade soberana do povo. Na minha
casa, no volume máximo, resistimos com o discurso anti-golpe, abafando
o som do rádio dos vizinhos, até que foi anunciada a fuga de Jango
para o Uruguai. Um ambiente de consternação tomou conta da minha
casa, a partir do momento da capitulação do presidente da república.
Parecia que sabíamos do que estava por vir. Parecia que tínhamos
consciência de que, por duas décadas, só os omissos e os
bajuladoras dos poderosos seriam felizes. Parecia que sabíamos que, tirando
nossos pais, que caminhavam em direção à velhice, não
tínhamos vocação nem para omissos nem para bajuladores
de opressores, fossem eles fardados ou "paisanos".
Estou lembrando tudo isso, desde o dia da queda do avião da TAM. A cada
dia que passa, sinto a oposição e a imprensa deste país
mais vociferantes e perigosas. Algumas personalidades importantes têm
usado de meias palavras, mas não enganam ninguém. A pregação
do golpe de estado está na ordem do dia. E o povo não respondeu
positivamente aos apelos dos golpistas porque não é tolo. Ele
sempre está repetindo um velho bordão que diz: "Olha o porco
falando do toucinho!" Ele sabe que as dificuldades deste país vêm
de longa data. Ele sabe que certos discursos estão impregnados de conteúdo
golpista. Ele sabe que a imprensa é formada por empresas onde quem manda
são poderosos patrões que têm ideologias e interesses que
estão acima de qualquer jornalismo "imparcial". O discurso
pedindo ética na política não tem sido ouvido porque o
povo sabe que também falta ética na imprensa, falta ética
nas igrejas, falta ética nas empresas, falta ética nas escolas,
falta ética nas delegacias de polícia. O povo sabe que falta ética
até nos tribunais, que deveriam julgar e pôr na cadeia os políticos
e os funcionários públicos corruptos, os (des)educadores e os
podres padres pedófilos, os torturadores, os traficantes de armas de
uso exclusivo das forças armadas, os divulgadores de falsas notícias,
os articuladores de conspirações, os sabotadores e outros terroristas
disfarçados de pacatos cidadãos, os manipuladores de fatos que
violentam a História, os juízes vendedores de injustiças,
os policiais que trabalham para o crime organizado, os empresários corruptores
de poderosos de todas as espécies e, até mesmo, os pastores de
igrejas que tomam, em nome de Jesus, o dinheiro dos desesperados, e, se necessário
for, até mandam matar seus concorrentes.
Sinceramente, todos que viveram o Golpe de 64 têm medo que os fatos se
repitam, principalmente quando a grande imprensa joga todas as suas fichas no
desgaste do governo. Realmente o governo Lula tem grande responsabilidade, com
suas vacilações, sua incompetência, e sua conivência
e cumplicidade com a corrupção reinante no país, por muitos
dos erros que lhe são imputados. Entretanto, se adquirirmos o hábito
de derrubar por meios violentos e conspiratórios todos os governos que
errarem, a primeira coisa honesta que teremos a fazer será jogar no lixo
a democracia, com todos os seus princípios e valores. No dia do acidente
da TAM, juro que dormi com a impressão de que acordaria com as ruas ocupadas
por tropas das forças armadas, principalmente da Aeronáutica.
Agora, entretanto, perdi um pouco do medo de que tais fatos aconteçam.
É que falta um ingrediente essencial para o sucesso de um Golpe de Estado
no Brasil de hoje. No momento, felizmente, entre os partidários da derrubada
do Lula, não existe nenhum setor organizado e politizado neste país
com bagagem moral, preparo e capacidade de liderança suficientes para
conquistar o respeito e o respaldo da população brasileira e,
após um hipotético sucesso do golpe, assumir o poder.