(Para o Presidente Obama e os dezessete mil soldados que ele enviou ao Afeganistão)
Sim, eles podem!
Eles podem invadir nossas casas quando quiserem e podem também destruí-las,
reduzindo-as a escombros.
Eles podem descarregar bombas e mais bombas sobre nossas cidades, promovendo
horríveis genocídios em nome da paz.
Eles podem torturar, manter inocentes encarcerados e calar a boca dos que denunciam
seus abusos.
Eles podem mentir e roubar impunemente, e forjar uma pseudo-ética para
justificar seus crimes.
Eles podem distorcer e fabricar "verdades" com as quais contaminam
o mundo.
Eles podem condenar à invisibilidade, internar e deixar esquecidos em
hospícios reais e virtuais aqueles que tentam abrir nossos olhos e nos
tirar da letargia que nos leva a crer em tudo que eles dizem.
Sim, eles podem!
E podem porque acreditamos que são eles que garantem nosso sagrado direito
à liberdade. Graças a eles - cremos nisso piamente -, apesar da
crise que obscurece nosso futuro, vivemos no mundo livre e democrático.
E todo o poder que os torna onipotentes e onipresentes se origina em nós,
acuados no meio do fogo cruzado de guerras que não são nossas
e cegos de medo no neomedievo globalizado.
"Ser ou não ser" já não é o nosso dilema.
Há muito, trocamos nosso direito ao "ser" pela segurança
dos arredores dos castelos dos nossos senhores. Lavando suas privadas, consumindo
suas inutilidades e vestindo nossas almas com suas idéias, freqüentamos
seus mercados trocando dignidade por in/segurança.
E, por isso, eles podem. Eles podem tudo.