Segundo leio na coluna "AnteNada" (que nome bem escolhido para uma
coluna sobre TV!) do jornal O TEMPO, Marta, personagem da novela "Páginas
da Vida" levará duas "merecidas" surras do marido Alex.
Até entendo que colocar uma odiada personagem levando uma surra aumenta
a audiência da novela e garante o faturamento da emissora com propagandas,
merchandising, etc.. Porém, como pai, educador e pretenso escritor, fico
extremamente desanimado. Vivemos num país onde a violência campeia
solta e impune. Sabemos que a novela, principalmente a chamada "novela
das oito" da Globo, exerce uma grande influência sobre a população.
A prova disso é que grandes temas abordados nas novelas têm levado a população a se mobilizar. Foi assim com a doação
de medula óssea, com a valorização dos deficientes visuais
e com a inclusão social e escolar dos portadores da Síndrome de
Down (este último um tema levantado pela própria novela "Páginas
da Vida"). Mas, como ninguém é totalmente "mau"
ou totalmente "bom" e os escritores de novelas também não
fogem a esta regra, eis que os autores de novelas vêm promovendo uma outra
campanha perigosa e extremamente negativa, cuja máxima poderia ser: "Quem
apronta muito merece ser coberto de porrada".
Será que os autores, os diretores e atores de novelas já pararam
para pensar sobre a mensagem que estão passando para o povo?
Quantas pessoas, ao ver a mulher que raptou o bebê, a outra que aprontava
todas para chegar ao topo na empresa em que trabalhava, ou a mulher que "vendeu"
o neto e escondeu que a neta estava viva serem violentamente espancadas, se
sentirão no direito de julgar, condenar e fazer o mesmo com pessoas que
estão bem próximas delas? Alguém já se deu ao trabalho
de pesquisar, assim com se levantou e se apurou o aumento do número de
doadores de medula óssea, nos tempos da doce Camila, em quanto aumentou
o espancamento de pessoas depois da cena em que a personagem da Renata Sorrah
levou aquela surra da Senhora do Destino? E mais: será que o Manoel Carlos
já pensou que o Alex é marido da Marta e que, pelo Brasil afora,
várias "Martas" receberão sua merecida surra por suas
"maldades" cometidas ao longo dos anos? Até imagino a cena.
O casal assiste à novela. Acaba a surra, o cara olha pra a esposa e decreta:
"Agora é a sua vez!".
Fazer justiça com as próprias mãos, espancando as pessoas,
nunca foi solução para nada. O público gosta, é
claro. A audiência aumenta. Mas as pessoas não estão preparadas
para julgar e condenar ninguém. Egoístas, ignorantes e avessos
à leitura (O que não é culpa das pessoas. Ser analfabeto
funcional é fruto da má qualidade da aprendizagem neste país.),
fanáticos religiosos, todos julgam o outro por critérios tortuosos
e deformados. Todos escrevem errado (e como escrevem errado!) por linhas tortas.
Já pensou essa gente despreparada julgando, condenando e espancando seus
semelhantes?
O ideal seria convencer os autores de novela a deixarem de incentivar a população
a apelar para a violência para resolver suas desavenças. Entretanto,
lembrar a eles que, em nosso país, incitar a pessoas a praticar atos
violentos é crime, talvez já os levasse a pensar um pouco mais,
antes de apresentar a porrada como uma forma eficiente do "bom" castigar
" o mau".